24 Mar 2026

U.Porto e Dimas & Silva dão nova vida ao pó da cortiça

O processo de produção de cortiça gera, todos os anos, grandes quantidades de um subproduto pouco aproveitado, mas com grande potencial: o pó de cortiça. Esse é um tema que preocupa o setor, quer do lado da indústria quer do lado da ciência e investigação. Nesse sentido, uma parceria entre a empresa Dimas & Silva e um grupo de investigadores da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP), UCIBIO e do CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da U.Porto, chegou a bom porto e vai, agora, começar a tratar de levar a solução desenvolvida ao mercado.

O Cork2Cosmetics foi um verdadeiro arregaçar de mangas destes dois grupos com áreas de saber distintas, mas com um objetivo comum: pensar numa solução para "explorar plenamente o potencial do pó da cortiça” e, com isso, maximizar o seu valor económico, como refere Isabel Martins de Almeida, investigadora do Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da FFUP e líder do projeto. E vão fazê-lo através da incorporação do pó em produtos cosméticos, "dando uma nova vida a este recurso negligenciado”.

Este é um modelo de colaboração que a U.Porto incentiva, juntando empresas e indústria em projetos. Depois, se os resultados forem exploráveis e de interesse comercial, é negociada a licença de exploração dos resultados de investigação, que foi o que aconteceu neste caso: um "verdadeiro exemplo de sucesso de um projeto de Investigação & Desenvolvimento empresarial em regime de co promoção”, refere a U.Porto Inovação.

Sediada em Mozelos, Santa Maria da Feira, a Dimas & Silva é uma empresa familiar especializada na produção de granulados de cortiça (a base da sua atividade industrial) mostrou interesse em explorar industrial e comercialmente a invenção e, com a mediação da equipa da U.Porto Inovação, deram-se início às negociações. "Este processo de licenciamento foi liderado por uma equipa muito experiente e empenhada da U.Porto Inovação, envolvendo ativamente todos os parceiros”, conta Isabel Martins de Almeida.

O acordo entre as partes foi assinado em 2025, e pretende "estabelecer a U.Porto e a Dimas & Silva [que já são cotitulares no registo de patente desta invenção]  como parceiros de negócio, com detalhes específicos em sede de divisão de receitas”, contam os representantes da empresa.

Segundo Isabel Martins de Almeida, "este licenciamento concretiza a translação industrial de novas tecnologias geradas na FFUP o que, para além de ser muito gratificante para a equipa de investigação, representa uma valorização económica do conhecimento e um incentivo tecnológico e económico para as indústrias do setor corticeiro e cosmético, contribuindo para a afirmação de Portugal como um cluster de inovação na área cosmética”.


O que fazer aos subprodutos da cortiça?

Portugal é o maior produtor de cortiça do mundo, responsável por mais de 50% da produção mundial. Segundo dados da Filcork – Associação Interprofissional da Fileira da Cortiça, em 2025 Portugal produziu perto de 3,5 milhões de arrobas, o que equivale a 52 mil toneladas. Além disso, também é o maior exportador de cortiça e produtos derivados. Esse processo de produção gera, todos os anos, grandes quantidades de pó de cortiça.

A invenção desenvolvida na FFUP demonstrou que esse material tem potencial "como ingrediente absorvente de óleo, corante, esfoliante e fotoprotetor” e, por isso, pode ser usado tanto em produtos de maquilhagem como em protetores solares com cor ou produtos matificantes.

"A partir do pó, obtiveram-se extratos aquosos com atividade antioxidante, anti-inflamatória e anti-senescência, adequados a produtos de cuidado da pele como hidratantes e anti-envelhecimento” explica Honorina Cidade, que supervisionou o estudo deste processo extrativo.

A solução "made in”  U.Porto tem várias vantagens em relação a outras soluções. Além de requerer um  "processamento mínimo”, o pó de cortiça é produzido em grandes quantidades e a partir de uma fonte renovável e sustentável, o que lhe confere "uma clara vantagem em relação a muitos outros subprodutos agroindustriais”, nota Sandra Mota, estudante de doutoramento que realizou grande parte deste trabalho experimental.

Já na área da cosmética, as vantagens na formulação dos produtos são várias: esfoliação suave, efeito potenciador do fator de proteção solar e propriedades corantes naturais. Ou seja, o pó da cortiça "é um ingrediente ecológico e versátil, interessante para uma grande diversidade de produtos cosméticos”.

O processo de obtenção dos extratos aquosos também é simples e, por isso, facilmente transposto para a escala industrial. Isso foi, também, um ponto importante para a Dimas & Silva, que viu de forma clara "o potencial de concretizar uma ideia num produto comercializável”.

De olhos num futuro mais sustentável

As preocupações ambientais estão presentes em ambos os lados – empresa e cientistas. Estando, atualmente, no que referem como "um novo momento da sua história, com uma visão orientada para a sustentabilidade e para a inovação responsável” o Cork2Cosmetic é, assim, "uma iniciativa de economia circular que reforça o compromisso da empresa com práticas sustentáveis e a valorização dos recursos naturais”, referem os representantes da Dimas & Silva.

A maioria dos requisitos regulamentares e técnicos já foi abordada pela equipa da FFUP, incluindo a "avaliação da irritação cutânea em modelos de pele reconstruída e a reprodutibilidade adequada dos lotes”, explica Isabel Martins de Almeida.

Também já foi garantida a qualidade microbiológica, através da "submissão do pó a um tratamento térmico específico, sem comprometer a estabilidade química”. O pó da cortiça foi testado em diferentes formulações cosméticas: sólidas, líquidas e semissólidas.

É necessário, no entanto, e como refere Isabel Almeida, "uma cadeira de abastecimento adequada para levar o pó de cortiça ao mercado”, ponto para o qual são fundamentais as parcerias com fornecedores da indústria cosmética. A Dimas & Silva vai continuar a colaborar com a equipa na investigação, nomeadamente na otimização do processo e da infraestrutura industrial para obter um material de alta qualidade.

Os próximos passos procuram levar a invenção "para os mercados internacionais”, concluem.



Fonte: In, Canal Alentejano
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