14 Jun 2022

Filhos da Terra - Entrevista a Joaquim Figueiredo

Não nasceu em grandes famílias capitalistas, mas subiu a pulso no mundo dos negócios. Juntamente com um dos irmãos, assumiu a direção de uma das cinco fábricas de cortiça da família, que, nos anos 70, era um dos maiores produtores de rolhas. Em conjunto, fundaram, em 1972, a Granorte, à qual Joaquim Figueiredo dedicou uma vida de trabalho. Com 78 anos, o empresário vai afastar-se do negócio e dedicar-se à família, bem como ao ténis, outra das paixões, que o levou a fundar o Clube de Ténis de Paços de Brandão

A necessidade motiva-nos a agir. Pai de oito filhos e durante muitos anos empregado numa fábrica de cortiça, Francisco Rocha era o único que contribuía para o sustento da família. A esposa, após o nascimento do quinto filho, teve de se dedicar ao cuidado e educação destes, o que a obrigou a deixar o emprego. Depois da jornada de trabalho de oito horas diárias, o brandoense fabricava rolhas no rés-do-chão de casa, para somar mais algum dinheiro ao fim do mês.

As dificuldades sentidas e o impulso dado pela esposa levaram Francisco Rocha a tentar melhorar a situação de vida da família. "O meu pai decidiu pedir um empréstimo de cinco contos a um grande empresário da freguesia para comprar cortiça ao Alentejo. Só que o senhor não lhe emprestou. Ficou dececionado e lamentou-se com um colega de trabalho, que se prontificou a emprestar. Com o dinheiro no bolso, meteu-se num comboio e foi ao Alentejo. Quando chegou, disseram-Ihe que o valor do transporte não compensava a carga, mas não tinha dinheiro para mais. Após uma longa conversa, chegaram a acordo: trazia um camião cheio de cortiça, fabricava as rolhas e depois pagava", começa por contar o filho, Joaquim Figueiredo. O corticeiro conseguiu cumprir o trato e o bom ritmo do negócio impulsionou a mudança do rés-do-chão para o quintal onde a esposa semeava o milho. "O negócio começou a correr tão bem que o meu pai chamou o filho mais velho para fazerem sociedade. Mas alertou-o que, quando tivesse capacidade financeira para construir um pequeno negócio, tinha de sair para dar lugar ao próximo irmão. Assim foi. Em pouco tempo, a família detinha cinco fábricas em Paços de Brandão", contextualiza um dos atuais sócios-gerentes da Granorte, empresa que surgiu na sequência da união das cinco unidades de produção dos irmãos.

"Comprávamos todos ao mesmo fornecedor de cortiça e vendíamos as rolhas aos mesmos clientes de França, Itália e Alemanha. Era incrível. De uma situação muito difícil, em pouco tempo, estávamos sem dificuldades. A vida alterou-se completamente", assegura o empresário, que antes de ingressar no meio foi mobilizado para a guerra em Moçambique durante 30 meses. "Quando regressei, o meu pai reformou-se e fiquei juntamente com o meu irmão na direção da empresa. As cinco unidades da família reuniam cada vez mais aparas devido à elevada produção e esses desperdícios eram importantes. Por isso, resolvemos, em 1972, fundar a Granorte".

"Passámos de não vender para dominarmos o mercado"

Localizada na freguesia vizinha de Rio Meão, a Granorte é hoje um dos principais fabricantes de revestimento de cortiça e produtora líder de pisos sustentáveis. Porém, para alcançarem a atual dimensão, os irmãos tiveram de suar. "Não tínhamos conhecimentos suficientes para dotar a empresa de equipamentos capazes de desenvolverem a produção. Tivemos de ir ao sul do país, onde se concentravam as empresas de granulados, contratar um técnico que nos ensinasse os mecanismos. Ajudou-nos, só que não conseguíamos vender o produto que produzíamos para o estrangeiro. Diziam-nos que o material não servia", recorda Joaquim Figueiredo, lembrando, de seguida, a ocasional visita de um japonês à empresa com um saco de granulados. "Não éramos capazes de produzir os granulados pretendidos, mas pedimos que os deixasse ficar. Mais tarde, numa visita a um cliente na Inglaterra, o meu irmão viu um moinho e achou-o interessante. O dono deixou-o trazer para Portugal, metemo-lo a trabalhar e não é que saíram granulados iguais aos que o japonês nos trouxe?", diz, entre risos, acrescentando que, 50 anos depois, o nipónico é cliente da Granorte. "Passámos de não conseguir vender para dominarmos o mercado", atesta.

O resto da história está disponível a todos. A empresa, que detém 152 clientes em 52 países, foi somando prémios atrás de prémios, distinguindo-se nos últimos anos pela inovação. "Fizemos coisas muito bonitas. Nunca imaginei chegar até aqui. As coisas aconteciam de uma forma tão inesperada que até ficávamos surpreendidos", confessa o septuagenário, mas não sem antes frisar a chave para o sucesso: o trabalho. "Tínhamos uma coisa muito boa: estávamos habituados a trabalhar. Comecei aos 11 anos a trabalhar no ramo da cortiça, porque a vida exigia-o. Todos nós [irmãos] tivemos uma vida de trabalho e quando percebemos que era recompensado, mais trabalhávamos", garante.

Joaquim Figueiredo retira-se aos 78 anos

Quando não estava no Alentejo ou fora do país, em representação da empresa, Joaquim Figueiredo deslocava-se todos os dias desde Paços de Brandão, onde continua a residir, até Rio Meão. Soma 50 anos de trabalho na Granorte, os quais se juntam a tantos outros. Atualmente com 78 anos é tempo de serenar e delegar funções na nova geração. "A nova geração da família irá suceder-me. Em setembro, retiro-me. Vou continuar a acompanhar, mas sem a obrigação de estar permanentemente na empresa", anuncia.

O legado será passado ao filho e aos sobrinhos, que já desempenham funções na Granorte há largos anos. "Há 30 anos defini que só entrava na empresa um filho de cada sócio, mas os melhores. Não vinham por serem filhos do patrão. Todos têm de trabalhar e é o que acontece, por isso estou convencido de que vão fazer melhor do que eu", partilha.

A partir de setembro, Joaquim Figueiredo irá dedicar-se em exclusivo à família. "Vou dedicar-me sobretudo à esposa. O trabalho roubou-me muito tempo em família", confessa. Da Granorte leva as amizades e o reconhecimento dos funcionários. "Sinto-me completamente realizado. Sou amigo dos fornecedores, dos clientes e dos empregados. Prova disso foi a receção, que me chocou, no dia da Granorte [20 de maio]. Não vou esquecer a reação de todos quando anunciei a minha saída..." recorda emocionado.

"Estou ligado a tudo em Paços de Brandão"

Quando Joaquim Figueiredo não se encontrava a trabalhar na Granorte, a probabilidade de encontrá-lo num campo de ténis não era reduzida. Depois de ter sido obrigado, quando chegou da Guerra do Ultramar, aos 24 anos, a deixar a primeira paixão no desporto, o futebol, devido aos compromissos laborais, rapidamente encontrou um novo hobby: o ténis.

Praticante regular e membro de uma equipa de competição, no escalão +60 anos, o brandoense travou uma 'luta' diária, "durante 16 anos", com a Junta de Freguesia de Paços de Brandão para conseguir o pretendido. "Tínhamos cinco campos de ténis em casas particulares, onde fazíamos competições. Durante 16 anos, discutimos com a Junta para nos ceder o terreno para o complexo. Não foi fácil", revela o obreiro do Clube de Ténis de Paços de Brandão, construído na Quinta do Engenho Novo.

Pelo meio, Joaquim Figueiredo ainda assumiu funções como presidente da direção do Clube Desportivo de Paços de Brandão, de onde guarda boas memórias. "Faço parte do grupo de jogadores que levou o clube à 2.- Nacional. Apesar de já terem falecido seis, todos os meses reunimo-nos para um jantar", diz o empresário, que é ainda um dos fundadores do Instituto Superior de Paços de Brandão. "Estou ligado a tudo o que se faz em Paços de Brandão", acrescenta orgulhoso.

Fonte: In, Correio da Feira
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