13 Mar 2026

Corticeira Amorim usa Inteligência Artificial para analisar milhões de rolhas por dia

A Corticeira Amorim está a aprofundar a utilização de Inteligência Artificial (IA) nas suas operações, numa estratégia que já se estende a várias unidades de negócio do grupo e que está a transformar processos industriais e de gestão do conhecimento dentro da empresa.

Nas fábricas da Amorim Cork, onde são produzidas cerca de 25 milhões de rolhas de cortiça por dia, a IA deixou de ser um projeto experimental para se tornar parte integrante do processo produtivo. O primeiro passo nesta transformação tecnológica foi dado há mais de 15 anos. Desde 2020, a empresa passou a integrar sistemas de aprendizagem automática para melhorar a classificação das rolhas, sobretudo com base na sua aparência visual.

Recorrendo a fotografias e a outros dados, como imagens de raio-X, os sistemas passaram a aprender com grandes volumes de informação, aumentando a precisão, a eficiência e a homogeneidade dos lotes de cortiça. Antes da introdução da IA, a classificação era feita através de algoritmos complexos com milhares de linhas de código e dezenas de parâmetros ajustáveis.

"Tínhamos códigos com mais de 10 mil linhas e apenas quem os escrevia conseguia compreender totalmente o que estava ali”, explica Tiago Pinho, diretor industrial da Amorim Cork. As máquinas analisavam imagens em duas e três dimensões, mas a decisão dependia de cerca de 70 parâmetros configuráveis, o que limitava a consistência do processo.

Para ultrapassar essa limitação, a empresa avançou para soluções baseadas em redes neurais, capazes de aprender diretamente a partir de exemplos em vez de regras pré-programadas. Para desenvolver o sistema, a Amorim Cork estabeleceu uma parceria com a startup tecnológica Sentinel, no âmbito de um programa da Microsoft que promove a ligação entre a indústria e empresas especializadas em inteligência artificial.

O processo exigiu uma forte colaboração entre equipas industriais e especialistas em tecnologia. Engenheiros de computação passaram a trabalhar diretamente nas fábricas, enquanto equipas da Amorim aprofundaram conhecimentos na área da IA. O resultado foi a implementação de modelos de aprendizagem profunda capazes de replicar, de forma simplificada, o funcionamento do cérebro humano.

Atualmente, cada rolha produzida é analisada quatro vezes pelo algoritmo, num total de 12 decisões por unidade. Este sistema permitiu aumentar significativamente a repetibilidade das avaliações — isto é, a capacidade de aplicar os mesmos critérios de forma consistente — passando de cerca de 60% para 80%. Em comparação, a avaliação humana raramente ultrapassa uma taxa de repetibilidade de 75%.

Além de reduzir a variabilidade associada à análise humana, a tecnologia libertou recursos para tarefas de maior valor acrescentado dentro da organização. "O segredo não está no algoritmo. Está no cliente saber exatamente o que quer e definir claramente o resultado que pretende de cada máquina”, sublinha Tiago Pinho, acrescentando que a qualidade e a quantidade de dados são determinantes para garantir decisões fiáveis.

A aposta na Inteligência Artificial não se limita, contudo, à área industrial. Na unidade Amorim Cork Solutions, a tecnologia está a ser aplicada sobretudo na gestão e partilha de conhecimento interno.

Uma das iniciativas passa pela criação de um chatbot interno, alimentado por bases de dados específicas de cada setor, que permite aos colaboradores colocar questões sobre portefólio de produtos, fichas técnicas ou análises de mercado e obter respostas em segundos. A ferramenta já está a ser utilizada nas áreas de vedação e isolamento e deverá ser progressivamente alargada a outros setores.

Outra solução envolve um agente de Inteligência Artificial que analisa semanalmente um conjunto de sites selecionados pelas equipas e envia, através do Teams, resumos das principais notícias relevantes para o negócio, acompanhados por um relatório em PDF. A ferramenta pretende ajudar as equipas a manterem-se atualizadas sobre tendências e acontecimentos que possam impactar o setor.

Segundo Sofia Paixão, responsável pelo projeto Sector Knowledge, estas soluções visam acelerar o acesso à informação e garantir que as equipas dispõem de conhecimento atualizado de forma contínua, permitindo libertar tempo para atividades de análise e pensamento estratégico.

 

Fonte: In, Executive Digest
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