Política de cookies

Este site utiliza cookies. Ao navegar, está a consentir o seu uso. Saiba Mais

Compreendi

Notícias

José Silva, caçador e armeiro
2018-10-25

A caça mudou-lhe a vida, levando-o a trocar uma confortável aposentação da carreira de professor pela incerteza de vida de armeiro. "Ganhou a paixão", confessa-nos. Esta é a entrevista a José Silva, ou se preferirem, Professor Silva, caçador e o homem de negócios que criou a Drogaria Santos Silva e a transformou na Cacicambra, empresa que detém o Alvará n.°1 atribuído após a saída da Lei das Armas publicada em 2006.

Nasceu numa família sem qualquer ligação à caça. O seu Pai, "homem de muito trabalho", considerava qualquer atividade de lazer desnecessária e própria de vagabundos, "de quem não queria trabalhar". A caça era uma dessas atividades.

-Então como se deu o seu primeiro contacto com as armas e a caça?
-Aos 19 anos de idade entrei no serviço militar obrigatório, foi aí o meu primeiro contacto com armas de fogo. Uns anos mais tarde ingresso no curso de Rangers em Lamego, onde a utilização dessas armas se tornou mais séria. Fiquei a conhecer as armas da nossa tropa e do inimigo, pois os Rangers eram preparados para o combate. E foi precisamente para aí que fui parar, em Moçambique.

Já em Moçambique, em Mue- da, as colunas tinham dificuldade em transitar devido às estradas minadas, havendo frequentemente problemas de abastecimento no quartel e como tal tornava-se imperioso caçar. Foi assim que tive os meus primeiros atos de caça, apoiando o trabalho dos guias locais, já que era bom atirador, mas sempre preocupado com a segurança dos militares e dos guias. Caçava-se no rasto, os guias (pisteiros) seguiam a caça como ninguém. Eu só tinha que a abater.

-Regressando a Portugal...
-Quando regressei a Portugal fui aos coelhos com amigos. Vim desiludido. Não era aquilo que gostava. Foram as perdizes que me encantaram quando cacei pela primeira vez no Douro, depois em Mogadouro e Teixeira. A estratégia da caça à perdiz, a dificuldade da sua caça e a parte física foi o que me entusiasmou, além do espírito de equipa.

-Feito caçador, como surge a profissão de armeiro?
-Como caçador, sempre senti a falta de uma espingardaria onde pudesse encontrar o que necessitava na caça. Encontrávamos as armas e as munições, mas se quiséssemos um par de botas ou pendurador não havia. Então em sociedade com outro colega de profissão, professor, abrimos a Drogaria Santos Silva, com espingardaria, não fosse este negócio das armas e da caça suficiente para a sobrevivência da sociedade. Na Santos Silva procurei ter tudo para o caçador e o negócio não foi tão pequeno assim, pois calculo que tenhamos vendido algo como 30.000 armas, fazendo também distribuição.

A Cacicambra nasce exatamente com a minha aposentação, em 1991, num espaço com 3.000 m2 em Vale de Cambra e vocacionada para a distribuição. A Santos Silva deixou de ser distribuidor e passou a ser apenas uma empresa de retalho local. O meu espírito continuou na Cacicambra, esta teria que vender tudo o que faria falta ao caçador. Ainda hoje esse espírito continua, na Cacicambra o armeiro encontra tudo - vestuário, todo o tipo de acessórios e equipamentos - para montar uma espingardaria completa.

-Mas hoje a Cacicambra está em Santa Maria da Feira.
-Em Vale de Cambra sentimos algumas dificuldades de acesso. Estava distante da Al, obrigando a passar por várias pequenas localidades até chegar à Cacicambra. Então, na viragem do século, surge a ideia de construir umas instalações criadas de raiz para este negócio e com acesso privilegiado a todo o país. Na altura, em 2000, eu era a única pessoa na empresa e sem pensar em sucessões, pensei em Santarém - centro do país -, em Albergaria-a-Velha -cruzamento de autoestradas, Al com A25 - e Santa Maria da Feira, com a vantagem de estar mais perto da minha residência e junto da Al.

Depois de estudar os vários locais, optei por Santa Maria da Feira, curiosamente o que implicava maior investimento. A estrutura, com 2.100 m2 na zona industrial, permitiu instalar um túnel de tiro e criar uma caixa forte com áreas contíguas devidamente protegidas. Tudo pensado de raiz, ainda antes de se pensar na Lei das Armas, que como se sabe surge em 2006. Sem eu ter ideia, um dia os auditores de contas dizem-me que estávamos muito acima das outras empresas do setor. A Cacicambra chegou à liderança do mercado 10 anos depois de ter nascido.

-E o negócio expandiu além fronteiras...
-Tive uma espingardaria em Espanha, 100% minha, não da Cacicambra. A ideia surgiu porque o mercado interno começava a ficar pequeno, iríamos entrar em conflito com a concorrência, por isso desejamos evoluir para a exportação. Pensei que o melhor local para montar uma espingardaria em Espanha seria a zona de Almendralejo, a região mais rica da Extremadura, com muita caça também. Dali começamos a distribuir para as espingardarias espanholas, além da Extremadura, nas regiões de Córdova, Castilha La Macha e Sevilha.

Sempre tive problemas com o excessivo protecionismo dos espanhóis, que me criaram dificuldades de toda a ordem para revender os produtos para os quais era distribuidor no nosso mercado. A própria Guardia Civil colaborava nessa ação. Tinha de optar por outras marcas que não tinha representação em Portugal, ainda sem representação em Espanha. Deixar de trabalhar com as minhas marcas preferidas fez-me recuar.

-E a caça? E os caçadores?
-A caça... cheguei a ter três coutos de caça maior em Espanha, onde levava portugueses a caçar. Cá não havia nada. Era também uma forma de vender carabinas.

Gosto pouco de reviver o passado da caça, pois via cenas, enfim, que honravam pouco os caçadores. Eu passei pelo período em que se abriram as coutadas. Era fácil matar caça.

Quando se dá a "privatização" da caça, o ordenamento, já não havia caça e começa o decréscimo do número de caçadores. Assistimos a uma redução de mais de 300.000 para cerca de 100.000. Mas julgo que ficaram os verdadeiros caçadores, na maioria, que querem preservar a caça. Caça-se com mais ética e há a preocupação da preservação da caça.

O problema são os "não caçadores", aqueles que vão ao campo de vez em quando e acham que sabem tudo sobre o campo. Essas pessoas têm dificuldade em compreender o que se passa no campo. Eu vejo a caça com um futuro não muito negativo. Embora existam problemas a vencer, como a agricultura, atualmente pouco favorável às espécies de caça menor.

-E o futuro da Cacicambra?
-O futuro está assegurado. Com 70 anos é altura de dizer basta, não vou descalçar as botas, não tenho feitio para isso, vou continuar a colaborar, mas a empresa já pertence à nova geração, que curiosamente me acompanha nas caçadas desde tenra idade. Tenho duas filhas e ambas tiraram carta de caçador. A mais velha enveredou pela investigação e atualmente está em França como diretora de uma grande multinacional. A mais nova decidiu pegar na empresa e dar continuidade ao negócio. Dá-me ideia que tem mais vício na caça do que eu...

E até a terceira geração já está assegurada, a minha neta mais velha já me acompanhou num safari à Namíbia e agora quer arrancar por meios próprios. Portanto, quero crer que já existe a terceira geração para dar continuidade à empresa. Posso dizer: missão cumprida! 



In, CAÇA & CAES CAÇA
voltar